Mudei-me para minha modesta casinha em junho deste ano, às vésperas do meu aniversário de 31 anos. Até o momento, posso dizer que morar sozinha é tudo que eu esperava. E, ao mesmo tempo, não é.
Uma casa traz - e isso é claro que eu já esperava - responsabilidades e "cargos administrativos", todos assumidos, neste caso, por uma única pessoa. Entre as incumbências estão manter a casa minimamente limpa e arrumada, a geladeira razoavelmente cheia, a louça lavada, o banheiro limpo, as contas pagas. Até aí, nenhuma surpresa, exceto pelos extras. É fundamental ter uma grana guardada para o que pinta sem a gente planejar. Um bombeiro que precisa ser chamado quando a descarga do único banheiro pifa, por exemplo.

Uma casa traz também alegrias - e essas eu já imaginava - que vão de poder convidar os amigos qualquer dia até ter o direito de desabar sozinho, no meio da sala, após encher a cara e dançar de forma esquizofrênica, sem ninguém para assistir (e nem para julgar ou mandar a gente parar). É um espaço para se fazer, basicamente, o que se quer, desde que não acabe com a vida dos vizinhos (e de preferência também não com a de si próprio, pois saber se cuidar também faz parte).
Da lista de obrigações listadas no parágrafo dois deste texto, pagar o aluguel e as contas é o único item que não se pode deixar de fazer, deliberadamente. A geladeira vazia e a casa suja são de inteira responsabilidade do inquilino, e quem habita um ninho mais ou menos decente é o mesmo ser que o bagunça ou se dá ao trabalho de mantê-lo apresentável.
O que talvez eu não soubesse, ou não tivesse ainda muita noção, é que casa vazia também dá solidão. Se soa dramático para você, é porque é um pouco dramático mesmo. Para quem está acostumado a casa cheia, que recebe seus moradores todos os dias com muita falação e alegria, está sempre aberta aos parentes mais agitados nas reuniões de família e conta com aquela comida que cheira por todos os cômodos enquanto é preparada, morar só pode ser bem difícil em certos momentos.
Para que dê certo, é fundamental saber conviver com si próprio. Ter ouvidos apurados para ouvir o silêncio, e não apenas suportá-lo. Aprender a aproveitar a convivência consigo mesmo. Lembrar de ligar um som ou assistir a um filme bacana. Apreciar um bom livro. Aventurar-se a um novo hobby como escrever, cozinhar, desenhar, pregar botões, plantar bananeira, ou o que quer que envolva apenas você mesmo e a sua disposição/vontade/intuição.
Ainda tenho dificuldade para conviver comigo mesma apenas, e me sinto às vezes perdida em casa, mesmo morando num espaço de 28 metros quadrados. Já limpei paredes por não ter "nada para fazer", após olhá-las fixamente por um tempo. Já cozinhei pratos que nem ia comer, e depois tive que congelar tudo. Já chorei porque me apareceu uma barata e eu já tinha dedetizado a casa e eu não sabia como matar aquele bicho sozinha no meio da madrugada (também fiquei me perguntando como é que ela tinha sobrevivido ao veneno da infalível Insetisan). Já ouvi todas as músicas do meu iPod. Leio um livro a cada três dias.
E nada, nada disso poderia ser dispensado.
Quero casar. Quero morar junto. Quero ter filhos. Quero uma casa cheinha, agitada e falante como a casa em que cresci. Quero até netos. Festas. Natais lotados. Ovos de Páscoa pela casa. Bolos que matam a gente de tão cheirosos. Quero ter uma família que eu eu que construí. Mas tenho consciência de que esta etapa pela qual estou passando, que me ensina a cada dia a conviver alegre e tranquilamente comigo mesma, a deixar de ser menina e virar mulher de vez, a enfrentar a vida com menos insegurança, é fundamental para que a etapa seguinte chegue bem e na hora certa.
Que morar sozinha seja um estágio do qual eu sempre me lembre com alegria, e me leve a ser uma mãe, filha, mulher, amiga e até uma profissional muito melhor (mas que isso não leve uma eternidade para acontecer, que ninguém é de ferro... e sou bem ansiosa!).