Uma casa traz - e isso é claro que eu já esperava - responsabilidades e "cargos administrativos", todos assumidos, neste caso, por uma única pessoa. Entre as incumbências estão manter a casa minimamente limpa e arrumada, a geladeira razoavelmente cheia, a louça lavada, o banheiro limpo, as contas pagas. Até aí, nenhuma surpresa, exceto pelos extras. É fundamental ter uma grana guardada para o que pinta sem a gente planejar. Um bombeiro que precisa ser chamado quando a descarga do único banheiro pifa, por exemplo.
Uma casa traz também alegrias - e essas eu já imaginava - que vão de poder convidar os amigos qualquer dia até ter o direito de desabar sozinho, no meio da sala, após encher a cara e dançar de forma esquizofrênica, sem ninguém para assistir (e nem para julgar ou mandar a gente parar). É um espaço para se fazer, basicamente, o que se quer, desde que não acabe com a vida dos vizinhos (e de preferência também não com a de si próprio, pois saber se cuidar também faz parte).Da lista de obrigações listadas no parágrafo dois deste texto, pagar o aluguel e as contas é o único item que não se pode deixar de fazer, deliberadamente. A geladeira vazia e a casa suja são de inteira responsabilidade do inquilino, e quem habita um ninho mais ou menos decente é o mesmo ser que o bagunça ou se dá ao trabalho de mantê-lo apresentável.
O que talvez eu não soubesse, ou não tivesse ainda muita noção, é que casa vazia também dá solidão. Se soa dramático para você, é porque é um pouco dramático mesmo. Para quem está acostumado a casa cheia, que recebe seus moradores todos os dias com muita falação e alegria, está sempre aberta aos parentes mais agitados nas reuniões de família e conta com aquela comida que cheira por todos os cômodos enquanto é preparada, morar só pode ser bem difícil em certos momentos.
Para que dê certo, é fundamental saber conviver com si próprio. Ter ouvidos apurados para ouvir o silêncio, e não apenas suportá-lo. Aprender a aproveitar a convivência consigo mesmo. Lembrar de ligar um som ou assistir a um filme bacana. Apreciar um bom livro. Aventurar-se a um novo hobby como escrever, cozinhar, desenhar, pregar botões, plantar bananeira, ou o que quer que envolva apenas você mesmo e a sua disposição/vontade/intuição.
Ainda tenho dificuldade para conviver comigo mesma apenas, e me sinto às vezes perdida em casa, mesmo morando num espaço de 28 metros quadrados. Já limpei paredes por não ter "nada para fazer", após olhá-las fixamente por um tempo. Já cozinhei pratos que nem ia comer, e depois tive que congelar tudo. Já chorei porque me apareceu uma barata e eu já tinha dedetizado a casa e eu não sabia como matar aquele bicho sozinha no meio da madrugada (também fiquei me perguntando como é que ela tinha sobrevivido ao veneno da infalível Insetisan). Já ouvi todas as músicas do meu iPod. Leio um livro a cada três dias.
E nada, nada disso poderia ser dispensado.
Quero casar. Quero morar junto. Quero ter filhos. Quero uma casa cheinha, agitada e falante como a casa em que cresci. Quero até netos. Festas. Natais lotados. Ovos de Páscoa pela casa. Bolos que matam a gente de tão cheirosos. Quero ter uma família que eu eu que construí. Mas tenho consciência de que esta etapa pela qual estou passando, que me ensina a cada dia a conviver alegre e tranquilamente comigo mesma, a deixar de ser menina e virar mulher de vez, a enfrentar a vida com menos insegurança, é fundamental para que a etapa seguinte chegue bem e na hora certa.
Que morar sozinha seja um estágio do qual eu sempre me lembre com alegria, e me leve a ser uma mãe, filha, mulher, amiga e até uma profissional muito melhor (mas que isso não leve uma eternidade para acontecer, que ninguém é de ferro... e sou bem ansiosa!).
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ResponderExcluirEntendo bem isso, KK.
ResponderExcluirQuando me mudei para Angra em Janeiro desse ano, eu não conhecia praticamente ninguém na cidade. Trabalho sozinho aqui
Nunca tive problema em ficar sozinho. Quando morava com meus pais, adorava quando eles viajavam e eu ficava sozinho em casa. Eu ficava online com amigos em algum joguinho qualquer no computador, ou batendo papo. Mas aqui nem computador eu tenho. Os meus pifaram e a prioridade de gastos os deixa em segundo plano. Conexão com a internet? No interior essas coisas não são tão comuns, só tenho o 3G do meu celular para conseguir contato com o Mundo exterior.
Tive que me reinventar de alguma forma. Nunca fui de assistir televisão e, TV à cabo não chega na minha rua ainda.E olha que antes eu acreditava que via satélite, chegaria em qualquer lugar, mas não parece ser o caso. A primeira noite, numa casa não mobiliada, é sempre mais difícil. Parece que você está revertendo à alguma espécie de retrocesso, ao invés do progresso que realmente é.
Mas aos poucos, cada móvel é uma pequena vitória, e a primeira delas foram as minhas estantes. Claro, porque mesmo que eu não tenha cama, meus companheiros eternos, meus livros, precisam ter um espaço legal para sobreviverem, e eles foram os responsáveis por eu estar tranquilo.
Recentemente instalei uma antena de TV digital, e só pego dois canais, que uso para assistir notícias e esportes. Só tenho paciência para isso em relação à TV. O resto são seriados ou filmes que tenho em DVD.
A questão dos hobbies é importantíssima. Eu tento consertar tudo em casa. Sempre tive vontade de fazer essas coisas, mas no corre corre de uma cidade grande, você acaba contratando o serviço. Aqui tenho mais tempo livre, então pesquiso como fazer alguma coisa antes e, às vezes, recorro à ligar para alguém que já tenha feito algo semelhante. Instalei minhas persianas, e senti um senso de realização muito legal!
Estou cozinhando cada vez melhor também, e estou adquirindo paladar para temperos que nunca dei a mínima importância antigamente. Cada novo prato, uma nova descoberta, um novo interesse e uma nova dedicação, e de maneira cada vez mais saudável!
Mas existe a necessidade de ler, estudar, produzir alguma coisa. Aqui só existe uma única livraria, bem pequena, para a cidade inteira! Então quando estou no Rio, eu compro alguma coisa para jogar no Kindle, ou vou até alguma livraria cuidar do meu abastecimento mental. Mas sempre preciso escrever alguma coisa. Depois de um achado fortuito numa gaveta do meu antigo quarto enquanto eu visitava os meus pais, coloquei novamente a máquina de escrever em funcionamento.
E é muito melhor do que eu lembrava. Foi totalmente reformada após apresentar um defeitinho em uma peça que eu mesmo não conseguia resolver, e está com fitas novas. Tenho usado a máquina quase que diariamente e tenho escrito muita coisa, que provavelmente nunca ninguém irá ler, mas acalma minha alma de uma maneira que só ela está conseguindo fazer. Usar uma máquina de escrever com a seleção correta de músicas pode ser algo realmente mágico.
E você está totalmente correta quando fala em extravasar sem julgamentos, sem ninguém por perto olhando, sem culpa alguma. Ajuda, e muito. Seja com música, filme, seriado ou música, a nossa privacidade em ir à loucura da maneira como acharmos melhor é impagável. Me faz até ficar bem tranquilo enquanto pago minhas contas e o aluguel.
E assim, vivo levando. Toda vez que estou em Niterói por qualquer motivo que seja, meus amigos comentam que estou mudado, que pareço menos estressado, que pareço bem mais saudável. Parte disso é a calma de Angra, claro, que mesmo com suas deficiências em infra-estrutura, algumas até irritantes, é uma cidade super calma e silenciosa. Mas a maior parte disso é a minha casa, meu espaço, minha autonomia, minha falta de julgamento sumário ou culpa atribuída.
Apenas eu, vivendo em harmonia comigo mesmo e correndo atrás da minha própria vida.
Obrigado pelo post, KK. Continue escrevendo assim ;)
Beijos, Lê
Concordoe gênero, número e escada com ambos. Morar apenas consigo não tem preço - ou melhor, tem, é expressivo e vale cada centavo. Poder surtar à sua maneira, fazer o que quiser quando quiser sem ninguém a não ser vc mesmo para ditar regras... Engrandece e relaxa. Moro no Rio, trabalho no Centro e, como muitos humanos poderia dizer que a minha vida é estressante. Prefiro não dizer isso. Entre as diversas razões pq meu teto para relaxar, para viver. Divido o apartamento com um cão show bola e é isso aí. Tenho a liberdade de fazer aqui o que eu bem entender - e o bem que isso gera é algo próximo incomensurável =D
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