quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Sou jornalista, não sou "de TI". Ou: o jornalismo a gente inventa...

Estou arrasada com tantos amigos, colegas e jornalistas que não conheço direito, mas admiro e reconheço como excelentes profissionais, à deriva nesta quarta cinzenta, talvez sem saber o que fazer, para aonde vão. Mas talvez minha preocupação maior seja com esse último ponto.
Vou tentar explicar.
Trabalho com digital desde que me entendo por jornalista, na verdade antes. Quando estava ainda na faculdade, comecei a desbravar o universo do digital e nele venho crescendo, sempre me abrindo mais e mais para o novo, e tendo em mente que forma e conteúdo andam de mãos dadas - e jornalista pode e deve, sim, se preocupar com ambos, quiçá ficar à frente ou ao menos participar das decisões envolvendo os dois. Pois bem. 
Numa grande empresa como O Globo, me vi, diferente de empresas menores, orientada a me ater apenas à forma (ainda que fosse formada em jornalismo e tivesse recebido três prêmios de jornalismo por matérias que escrevi). Ou melhor, não só à forma, mas ao que era conteúdo mas não jornalístico por definição. Por exemplo, trabalhei na coordenação do site Acervo O GLOBO tendo a missão, entre várias outras, de categorizar o conteúdo que ali estaria disponível para todos, criando os filtros da busca, pensando em como as informações seriam organizadas ali, em como chamaríamos os grupos de cadernos que O Globo havia tido ao longo da história - trabalho que fiz em em parceria direta com profissionais que estiveram envolvidos com a digitalização dos jornais publicados a partir de 1925. Se esse não era um trabalho "jornalístico", com certeza não era menos digno do que um dentro dessa definição e, de quebra, ainda servia para enaltecer um trabalho jornalístico. Tenho plena consciência disso e amo trabalhar com informação e colocar o que sei de digital a serviço da COMUNICAÇÃO. 
Porém, não era sempre que recebia apoio de colegas jornalistas. Gente que eu admirava, que eu tinha querido conhecer porque acompanhava suas matérias havia tanto tempo, gente que eu sabia que tinha muito o que me ensinar, muitas vezes me desprezava e me via como "a garota do digital", "aquela nerd do andar de cima", e por aí vai. Eu me sentia mais colega deles do que o contrário. Na verdade o contrário às vezes nem acontecia. Isso só não pesou mais porque a vida, sempre ela, trouxe surpresas, e entre os que me apoiaram muito e entenderam a natureza do meu trabalho estavam alguns dos maiores, e com eles eu podia ter a qualquer momento, bastava achegar no "aquário" onde ficavam e trocávamos ideias, eu podia ouvir incríveis discussões e participar quando quisesse. Esses quiseram saber um monte de coisa do digital e eu mostrava para eles feliz da vida. E a troca rolava solta.
Outros parecem ter reconhecido meu trabalho também e me apoiaram. Mas, ainda queria que os colegas se vissem mais como colegas, e entendessem que nessa profissão tem muito o que a gente precisa e pode fazer para virar o barco e se livrar da tormenta. E não é sendo preconceituoso ou menosprezando os colegas que seguiram caminhos diferentes, mas de forma alguma opostos, que isso vai acontecer. O jornalismo precisa do digital, mesmo que ele nunca seja 100% digital. Precisa dos meios, das novidades, das diferenças. E os colegas que sabem tanto, que viveram tanto do mundo das reportagens e da edição precisam colocar isso a serviço do futuro, quer dizer, do presente. 
Do contrário, quem ganha com isso? 
Tenho 33 anos, não sou geração Y, não tinha celular quando eu nasci, não tinha nem videocassete na minha casa, na verdade. Não tinha redes sociais porque nem computador tinha. No ano de 2005, escrevi minha monografia num PC 386 engasgado e velho que todos da minha casa usavam. Gravava o trabalho num disquete. O projeto era o site de uma revista da PUC. Decidi ser jornalista aos 10 anos de idade, fiz a faculdade e continuo me orgulhando dela. Depois, fiz pós em Marketing Digital, fui da primeira turma, ela agora está na 14a turma. Não usei máquina de escrever no trabalho, não fumei nem na redação nem fora dela, sou meio geração saúde, mas adoro o clima do filme "Watergate" e tive uma Olivetti bambina vermelha que meu pai me deu aos oito anos (serve?). Sei que o numeral O-I-T-O é para ser escrito assim, por extenso, de acordo com os manuais de redação. Sou jornalista em cada coisa que faço. A curiosidade me mata se eu não a matar antes. Fuço tudo até achar o que preciso, sobre qualquer assunto e para qualquer objetivo (não costuma ser publicar na mídia, mas pode ser ajudar a mim mesma, a alguém, ao meu trabalho, e sempre vale). Meto-me em tudo quanto é assunto - e sei que se escrevesse "me meto" com o "me" no começo da frase estaria gramaticalmente errado. Evito a todo custo deturpar o que falam. 
Prazer, sou sua colega. 
E por isso acho que é menos "para onde vão" e mais "para aonde vamos".
Boa sorte para você, para mim e para nós. Boa sorte para o jornalismo.