quinta-feira, 17 de julho de 2014

Casa ou casamento?

O aluguel aumentou um pouco, trazendo a lembrança de que já tem um ano que estou na Casinha de Primeira que montei para mim.

Escrevo de um computador melhor do que o que usava quando me mudei. Naquela época, era impossível pensar em comprar computador novo: na minha cabeça e na conta bancária só havia espaço para móveis, objetos de decoração, acertos, consertos.

Transcorrido esse tempo, posso dizer que a relação com a casa se parece um pouco com a de qualquer outro relacionamento. Especialmente os que envolvem os casais. Esses costumam começar com empolgação, uma energia infinita para fazer coisas bacanas e também as que não são tão legais assim. A gente topa tudo, acha tudo ótimo, maravilhoso. Ela sai tarde do trabalho? Ele espera acordado - e cheiroso. Ele gosta muito de carros? Ela acha fofo e másculo. Ela fuma? Ele acha sexy. Ele é viciado em futebol? Ela gosta quando ele volta suado da pelada.

Meses depois, ele não aguenta mais esperá-la sair tarde do trabalho, e na verdade ão suporta mais aquela droga de vida que ela escolheu. Ela só trabalha, não tem tempo para mais nada. E o sexo esfria. E ela começa a achar que o vício dele em carros está extrapolando. Ele não devia estar poupando dinheiro para casar e ter uma vida melhor com ela, em vez de trocar o carro toda hora? Ele não aguenta mais a fumaça do cigarro dela e, pior ainda, o hálito. Ela passa a reclamar do futebol, e exige que ele tome banho imediatamente quando sai da pelada e cogita beijá-la.

Tá. Não é assim que está a minha relação com a minha casa, está bem melhor que isso, na verdade! Mas sabe aquela alegria de lavar banheiro que eu sentia nas primeiras vezes, porque afinal eu estava lavando um banheiro meu, só meu e de mais ninguém? Acabou. Quer lavar? Fica à vontade. É todo seu. Tá meio empoeirado? Tem uns cabelinhos no chão? Ah, já já eu tiro. Mas é claro que acabo lavando toda semana, que não sou porquinha. É só aquela vontadezinha... que não existe mais, rs.

Arrumar a cama se tornou tarefa útil apenas nos finais de semana, como era de se imaginar. Até curto arrumar a cama e chegar à noite e encontrar aquela caminha arrumadinha. Mas que tal o edredon dobrado como uma concha, do jeito que deixei pela manhã e da mesma forma pronto para outra noitada? Bate um bolão, hein? É que nem o marido barrigudinho: largadinho, mas confortável, gostoso, aconchegante. A cama arrumada, essa é como o cara com abdômen de tanquinho: gostosa, mas chata, exageradamente certinha, e ainda precisa ser desarrumada para ficar boa...

O armário está zoneadinho, mas tem mais a minha cara agora. Sei onde está cada coisa, mesmo na baguncinha. Arrumo de vez em quando. Armário bom é armário com nosso cheiro, nossas coisas, nossa cara. Ainda que tenhamos que abrir as portas dele para descobrir isso.

A louça na cozinha desistiu de ser ansiosa. Sabe esperar sua vez de ser acariciada com a esponja, e sabe que não adianta reclamar porque só vai rolar quando eu estiver a fim. Quando lavo, fico toda feliz. Mas até começar... nossa, que preguiça. Chego a deixar a água escorrer mais tempo sobre os pratos na esperança de que se autolimpem. E não é que às vezes isso praticamente acontece?

Parei de gastar dinheiro com presentinhos para a casa a todo momento. Ela não precisa de tantos badulaques para ficar bonita, porque já é linda e charmosa, mesmo sendo bem menor do que eu poderia desejar. É uma casa do tipo mignon. Quando dou presentes a ela, procuro pensar no que ela realmente precisa, pois ela ainda precisa de muitas coisas. Penso, penso e acabo investindo em algo essencial, necessário. Se não for a coisa mais bonita do mundo, pelo menos que seja prática e muito útil. Meio tipo pijama, sabe? A gente começa dormindo com uma camisola linda, lilás, transparente, com um elástico no peito que machuca mas deixa ele lindo. E acaba cedendo ao pijama velhinho, tão mais prático, tão mais confortável, tão mais tudo.

Apesar de tudo isso, amo minha casa cada vez mais, e pretendo construir com ela uma relação duradoura, onde quer que ela seja. E, para que além de durável seja estável e permaneça gostosa e leve, sei que preciso investir todo dia nessa relação, dando atenção à minha casinha, cuidando dela com carinho.

Casa é mesmo que nem casamento.