Mas ainda que estivesse pensando isso deles, pensei também que podiam estar apenas felizes com o novo endereço, e querendo arrumar tudo logo, para a casa parecer mais casa e menos um repositório sem fim de caixas. Lembrei como me senti assim quando me mudei, como queria que tudo ficasse nos eixos logo para que eu pudesse então saber onde estavam minhas blusas, meu biquíni, meu sapato vermelho, o livro que estava lendo antes de começar aquela confusão chamada mudança.
Pensei que podiam ser um casal feliz, recém-casado, começando uma vida compartilhada, num apezinho do tamanho do meu, em que seriam obrigados a conviver bem de perto e, se inteligentes fossem, fariam de tudo para se dar muito bem, porque não há solução temporária de dormir em quarto separado quando se divide um conjugadinho.
Pensei que podiam ser mãe e filha, a mãe animada e orgulhosa da independência conquistada pela filha com a casa nova, as duas entusiasmadas querendo ver os pratos arrumados na cozinha, a cama posicionada da melhor forma, o armário com todas as roupas penduradas, a cômoda que era da avó bem limpinha, os sapatos na sapateira, os livros nas estantes. Tudo isso tagarelando e trocando dicas de tudo quanto é assunto de mulheres, como eu e minha mãe fizemos muita vezes quando me mudei e até hoje fazemos.
Podia ser também um vizinho sozinho, solitário ou não, a se aventurar pelo mundo da morada de um só, e perdido naquele espaço de 30m2 que podia estar até parecendo grande demais para ele, para sua mala de rodinhas com meia dúzia de roupas, sua cama velha, seu sofá pequeno, suas caixas de miudezas.
No dia seguinte, após finalmente dormir um pouco e acordar querendo dormir mais, quis saber quem afinal era o novo vizinho, e para isso fui perguntar ao porteiro.
- Não tem ninguém morando no 1201, não, senhora.
Durma-se com um barulho desses...
Ehr... Olhe pelo lado positivo. É melhor que seja um poltergeist do que um cracudo invadindo o apartamento pra fumar.
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